terça-feira, 14 de junho de 2011

Reflexões sobre o ser humano na pós-modernidade

Nas sociedades primitivas, sem a existência de classes sociais, as crianças conviviam com os adultos, de forma que adquiriam pela vivência o conhecimento de como viver em sociedade, as crenças e regras básicas de seu grupo social. Os interesses da comunidade eram os mesmos resultando em um aprendizado homogêneo e igualitário.

À medida que foram surgindo sociedades organizadas, evoluiu também os meios de produção, fazendo com que se sobressaísse dos demais membros da sociedade um grupo dominante, com interesses distintos dos demais membros da coletividade, de forma que os interesses comuns do grupo social que norteavam anteriormente os processos educativos acabaram por se tornar antagônicos, pois a classe dominante tem interesse em perpetuar sua situação hegemônica e garantir a submissão dos demais, que por sua vez recebem do aparelho estatal (a serviço da elite dominante) educação “formal” que os qualifica como mão-de-obra em prol dos interesses capitalistas.

O Estado surge, dessa forma, como parceiro das elites para legitimar e convencer as classes dominadas da utilidade da educação preparatória para o trabalho, educação que não forma, ao contrário, qualifica. Com o advento da globalização, essa qualificação tornou-se cada vez maior, a mão-de-obra deve cada vez mais ser mais bem preparada, pois a concorrência entre produtos de maior valor agregado e menor custo, é o que garante melhor inserção nos mercados mundiais.

Econômico. Dessa forma, o desejo de ser cada vez mais competitivo, a fim de que se conquiste novos nichos de mercado e a necessidade da tomada de decisões em tempo real, gera novos modelos relacionais.

Alvin Toffler afirma que “nas economias da terceira onda baseadas na mente, a produção em massa (que quase poderia ser considerada como a marca definidora da sociedade industrial) já é uma forma antiquada” (1993:39). Diante do exposto e da afirmação do autor, pode-se pressupor que a informação passa a ter papel relevante e a ser vista como bem de consumo com alto valor econômico no mercado de capitais, além de ferramenta de dominação.

A informação torna-se instrumento de poder. Assim, é possível perceber os relacionamentos humanos, como relações de poder, visível sob vários aspectos - na sociedade, na família, na escola, no trabalho - sempre haverá uma hierarquia que dita as normas de conduta e que deve ser respeitada, sob risco de penalidades. 

A globalização exige trocas de informação cada vez maiores e mais ágeis entre suas unidades. As economias desse período funcionam a velocidades tão aceleradas que se faz necessário mão-de-obra especializada, com capacidades e habilidades genéricas capazes de se adaptar às mais diversas situações que se apresentarem. O professor inglês Stuart Hall propõe que “as transformações associadas à modernidade libertaram o indivíduo de seus apoios estáveis nas tradições e nas estruturas” (1999:25).
        
O resultado desse período classificado como modernidade é que ele tende a produzir um sujeito histórico fragmentado com deficiências de aprendizagem, emocionais e relacionais. As deficiências do sujeito da modernidade geram crises de identidade nas quais o indivíduo perde a noção de limite entre o real e o imaginário, “resultando nas identidades abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas, do sujeito pós-moderno” (Hall, 1999:46).

A sociedade atual prega o consumismo desenfreado, o ter e o status social são mais importantes do que o caráter e os valores morais de uma pessoa. Muitas vezes parte-se de falsas premissas para a edificação da vida. O desejo de ascensão social faz com que muitas pessoas percam os valores que lhe foram introjetados na primeira socialização. O julgamento é emitido com base em posses, títulos acadêmicos ou meritórios e outros símbolos externos que remetem ao ‘sucesso’ e deixa-se de lado aquilo que realmente importa e que pode contribuir para o aprimoramento de um grupo – as qualidades do Ser Humano.

É fácil repetir a fórmula propagada pelas religiões cristãs que utilizam a Bíblia como base de orientação e conclamam que se deve “amar ao próximo como a si mesmo”. É possível até se ver a prática de tal preceito quando o próximo é alguém branco, com olhos claros, saudável, com carreira de sucesso. Amar aquele que é igual é simples, não requer esforço, o desafio maior, entretanto, reside em se enxergar o próximo na pele de uma pessoa simples, que não possui o estereótipo do branco europeu, bens materiais, está doente e muitas vezes não tem onde morar.

Ao se rotular uma pessoa de ‘negro’, ‘japonês’, ‘favelado’, ‘rico’, ‘pobre’, ‘burro’ além de enorme falta de respeito, propicia a geração de traumas que muitas vezes podem impedir que o indivíduo desenvolva seu potencial. É necessário romper as barreiras etnocêntricas e sociais e perceber a igualdade entre todos os seres humanos.

Os homens vêem o mundo de acordo com sua cultura, a herança cultural condiciona o indivíduo à não entender o outro. Cada cultura tem muitas variações de um mesmo padrão cultural, assim com também pessoas de culturas diferentes, têm reações diversas ante uma mesma situação. Apesar de todos os homens possuírem a mesma anatomia, a utilização do corpo não é determinada geneticamente, ela depende de um aprendizado, que consiste em uma cópia de padrões que fazem parte da herança cultural de um grupo. Os indivíduos de um mesmo sistema cultural utilizam o corpo de forma diferenciada em função do sexo.

Quando um indivíduo vê o mundo através da sua cultura, sempre é propenso a considerar seu modo de vida como o mais correto e natural, este pensamento pode gerar muitos conflitos sociais, pois o germe do racismo está presente e muitas vezes serve de justificativa para violências praticadas contra outrem. Todo sistema cultural tem uma lógica própria e é através desta lógica que deve ser entendido, ao invés de se tentar transferir a lógica de um sistema para o outro, evitando assim a tendência de considerar lógico somente o próprio sistema e os outros como irracionais.

A intolerância é o traço mais evidente da humanidade. Basta lembrar dos inúmeros os casos de pessoas que foram submetidas a “tratamentos” em manicômios para que se curassem do vício da droga ou então das casas de correção para menores. Verdadeiras fábricas de loucos e escolas de desumanização. A dose de violência ministrada aos internos não contribui para o seu resgate e reabilitação para uma vida em sociedade, ao contrário propicia o aumento do estado de degradação do ser, sendo que muitas vezes tal situação poderia ter sido revertida com um pouco de atenção, carinho e satisfação de necessidades básicas, além é claro de um acompanhamento profissional que privilegiasse o ser humano.

Conviver com as diferenças entendê-las e trabalhar para que sejam mitigadas, deveria ser a missão primordial de todo aquele que participa de uma vida em sociedade. Infelizmente alguns ainda não se deram conta da condição de igualdade entre todos os seres humanos. Busca-se a superação constante, porém, basta lembrar que “quem faz a história, a política, a economia, o direito, a comunicação e a cultura é o ser humano, e sobre ele devem recair as responsabilidades pelos seus atos, e não sobre um ente muitas vezes quase mítico que se resolveu chamar de globalização” (Rochman, 2003:88).




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